terça-feira, 11 de dezembro de 2007

sem título (5)

A AÇÃO
Promoção de evento para divulgação de revista.
Promotoras uniformizadas ofereciam um biscoito da sorte e um folder para os passantes que entravam e saiam dos elevadores e clientes do Café Belas Artes.

Realizado pelo coletivo SEM TÍTULO (5)*

*Composto por: Adriana Amaral, Andrea Xavier, Eunice Okuyama, Luciana Nobre e Mariana Jafet

Objeto de divulgação: Revista
A revista funciona como uma Instituição, porém, uma Instituição alternativa, ou seja, ela tem uma postura diferente das Instituições inseridas no circuito de arte chamado oficial.
As pessoas interessadas deverão entrar em contato com a revista, através de um email.

Materiais para Divulgação: Folder, Cartaz, biscoitos e camisetas

Cartaz: Fixados na entrada da unidade 2 e na porta de entrada da biblioteca unidade 1. Comunicava com data e hora o lançamento desta revista.



Folheto: contendo uma explicação sucinta do objetivo da revista, juntamente com o endereço de email para o qual as pessoas poderão se comunicar ou simplesmente solicitar o recebimento da mesma.
O folheto teve como função divulgar a revista em si e o que ela se propõe ser. Trazia à ação uma maior complexidade dentro da estratégia de marketing adotada pelo grupo, pois era o que explicava ao público o porquê da distribuição de biscoitinhos da sorte, pois este desvinculado ao folheto se enfraquecia, perdia o valor de veracidade.
Esta verdade não era construída de forma sólida exatamente para que se mantivesse o tom irônico da ação. Apesar de todo aparato para atrair o público, como a uniformização com camisetas, os folhetos era feitos em material de baixa qualidade, xerocopiados de uma matriz, e a revista nomeava-se “Sem título” (além de outros tantos motivos), para que ainda sim trouxesse à tona o questionamento: “Será q uma ‘revista de verdade’ entregaria um folheto como este e teria esse nome?”.
Biscoitos da sorte: usados como estratégia para atrair a curiosidade do público, continha em seu interior um bilhete com uma citação e o e-mail de contato da revista.
Uma referência para a concepção de nossa ação foi o artista Gordon Matta-Clark, que considerava a comida um grande chamariz. Segundo sua esposa Jane Crawford, certa vez assou um porco debaixo da ponte do Bronx para atrair os mendigos que por lá moravam e assim divulgar alguns de seus projetos, como o de criar materiais de construção a partir de lixo.



Outra ação em que ele coloca a comida como um elemento sedutor para reunir pessoas foi a proposição do restaurante Food, que fora pensado como um espaço de sociabilização, principalmente dos artistas que viviam no abandonado bairro nova-iorquino Soho nos anos 70.
Levando em conta este pensamento, o biscoito nos serviu como este elemento sedutor, como o que atraía o público. Não sendo um biscoito comum, pois optamos por um biscoito da sorte, que é tradicionalmente dado como brinde por restaurantes chineses e orientais em geral, e que faz parte de um imaginário popular por suas misteriosas mensagens de sorte (ou azar) que vêm camufladas em seu interior, ele despertou ainda mais curiosidade.
O papelzinho com a mensagem fora uma estratégia para que a comida não se desvinculasse da proposta de divulgação de uma revista, pois o folheto que era entregue no mesmo momento que o biscoito poderia despertar menos interesse, mesmo sendo o verdadeiro meio de divulgação das idéias da revista que estávamos promovendo.
A mensagem que nele estava escrita se inicia com o questionamento central da revista, “Qual o lugar da arte...?”, que se refere a sua própria criação e concepção como uma instituição, e prossegue com o pedaço de um poeta, o "Pequeno (a) 2.Eczema" de Nathalie Quintale, em “...se é no meu olho que o mundo diminui?”, que traz à indagação a idéia de somos nós que criamos limitações, barreiras construídas a partir de nossos referenciais, pois para Quintale, o mundo parece ser infinito, e eu que o diminuo, construindo o meu próprio mundo. Assim, a indagação torna-se uma afirmação de que todo e qualquer lugar é o lugar da arte (também uma infinitude), e de que este recorte, esta redução, não é criado pela arte em sim, mas por algo que é externo a ela. Quando fazemos uso de uma frase que fala da pessoa em si também estamos falando de uma autonomia que pode existir entre o espectador e a arte, sem que haja um filtro institucional entre eles, para assim promover uma dissolução desse papel legitimador que as instituições de arte em geral exercem.











Camisetas: uniforme usado para identificar as promotoras do evento e reforçar o caráter espetacular da ação.











CONCEITOS

O trabalho lida com idéia de espetacularização da sociedade, onde as pessoas não utilizam mais a imagem para entender melhor o mundo, passam a viver em função dela.
O público presente no espaço, já estava imerso no ”evento”, no espetáculo que criamos. Não houve dúvida em momento algum se aquilo era verdade, tornando o “evento” um espetáculo real.
Muitos acreditaram que, realmente, era o lançamento de uma revista, gostaram da iniciativa e falaram que mandariam e-mail solicitando seu exemplar.
Outros queriam apenas degustar o “biscoito da sorte”, interessados em saber “a sorte” que tirariam de dentro do biscoito.
As pessoas realmente não estavam interessadas no que seria de fato o produto desde que pudessem ter acesso a eles e que não tivessem nenhum custo com isto.
O que é importante neste caso é o espetáculo, o evento. Não importando qual seria o produto, o importante é estar inserido no espetáculo.
O trabalho fala também da própria arte, há embutido nele, com destaque, dois discursos contemporâneos: o do espaço para e da arte - a arte para além da instituição, uma discussão muito vinculada a performance (por isso a opção por essa linguagem para a realização do trabalho) e das hibridizações e desencaixotamentos que as produções artísticas contemporâneas acabaram criando, pois há uma expansão do que é considerado o campo da pintura, da escultura, seja qual for a linguagem e conseqüentemente há uma expansão de todo campo da arte. Em nosso trabalho fizemos uso de recursos do universo da publicidade e do marketing, assim como ambos fazem uso de meios do universo da arte para desenvolver seus trabalhos, o que mostra que essa mistura acontece não só entre os meios semelhantes, como há agregações de todo tipo para a realização de um trabalho artístico.


Referências Bibliográficas

BEY, Hakim. “A ânsia do poder como desaparecimento” in TAZ: Zona Autônoma Temporária. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2001 – (Coleção Baderna) – p. 63 - 69

AUGÉ, Marc. “Do Lugar aos Não-Lugares” in Não-Lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994 – (Coleção Travessia dos Séculos) – p. 71 - 105

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio D’água, 1991

KAPROW, Allan. “A educação do a-artista”.

COHEN, Renato. Performance como linguagem. São Paulo:Perspectiva, 2007

PECCININI, Daisy Valle Machado, coord., 1940. O objeto na arte: Brasil anos 60. São Paulo: Fund. Armando Álvares Pentead, 1978

http: www.itaucultural.org.br/efemera (Acesso em 30/05/2007)

É no meu olho que o mundo diminui, por Orlando Maneschy in http://forumpermanente.incubadora.fapesp.br/portal/.rede/numero/rev-NumeroOito/index_html (Aceso em 15/11/2007)

http://forumpermanente.incubadora.fapesp.br/portal/.event_pres/simp_sem/semin-bienal/bienal-vida/vida-doc/conf1/?searchterm=matta%20clark
(Aceso em 15/11/2007)









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